Achei a entrevista muito interessante e reproduzo abaixo:
A obesidade e como controlá-la é um assunto que tem sido objeto de muitas pesquisas e está sempre nas manchetes. Lembro de uma senhora que conheci em um evento social e que se queixava que seus filhos, ainda crianças, não comiam frutas ou verduras e, por essa razão, estavam com peso acima da tabela. Por coincidência, encontrei-a na semana seguinte no supermercado. Estava na caixa descarregando o seu carrinho bem na minha frente. Havia de tudo naquela compra: biscoitos, chocolates, refrigerantes, massas e molhos. Nada que fosse natural ou menos calórico. Lembrei-me da conversa anterior e entendi por que seus filhos não comiam frutas e/ou verduras.
Por isso, pesquisar se uma criança (ou adulto) torna-se obesa por causas ambientais ou genéticas é tão complexo. Para falar sobre o tema, eu entrevistei a Dra. Célia P. Koiffmann, que pesquisa o assunto no Centro do Genoma.
Dra. Celia, por que a obesidade está crescendo no mundo ocidental tanto em adultos quanto em crianças? Será que o acesso a alimentos, principalmente aos calóricos, está contribuindo para o aumento de peso das populações? Se todos comêssemos a mesma quantidade de alimentos engordaríamos da mesma maneira?
As respostas a essas perguntas são ainda parciais. A obesidade representa uma complexa interação de influências genéticas, comportamentais e ambientais. Os componentes ambientais são bem conhecidos: vida sedentária, excesso de ingestão de alimentos, principalmente de alimentos altamente calóricos. Se duas pessoas ingeriram as mesmas calorias, o ganho de peso poderá ser diferente de acordo com o seu perfil genético e também da atividade física de cada uma.
E os fatores genéticos? Um gene alterado (mutado) é suficiente para causar obesidade?
Estudos recentes mostram que há inúmeros genes associados à obesidade. E o papel de cada um deles para o aumento exagerado de peso tem sido objeto de muitas pesquisas. Na obesidade monogênica (causada por uma mutação em um único gene), nós conhecemos onze genes que, quando mutados, levam a obesidade: LEP (leptina), LEPR (receptor de leptina) SIM1, POMC, MC3R dentre outros, são alguns exemplos. Essas mutações são raras nos seres humanos. As formas comuns de obesidade têm uma herança chamada multifatorial. Ela resulta da interação de vários genes, cada um com um efeito pequeno (obesidade poligênica), e hábitos alimentares.
O que está sendo pesquisado no Centro do Genoma?
No Genoma, nós estamos estudando a obesidade sindrômica. Isto é, aquela que aparece junto com várias características clínicas distintas, associadas a dificuldades escolares e distúrbios de comportamento. A forma sindrômica mais frequente é a síndrome de Prader-Willi (PWS) caracterizada por hipotonia (bebê molinho), dificuldade de sucção no período neonatal, atraso do desenvolvimento neuropsicomotor (DNPM), hiperfagia (fome exagerada), mãos e pés pequenos, dificuldade de aprendizado e distúrbios de comportamento.
Como o estudo da obesidade sindrômica pode auxiliar na pesquisa sobre os genes comuns de obesidade?
Avaliamos vários pacientes com obesidade sindrômica nos quais descartamos a síndrome de PWS por meio de testes genéticos. Isso nos permitiu identificar diversos outros genes relacionados à obesidade. Qual o papel desses genes? Como eles atuam? Ainda não sabemos, mas estamos investigando.
Você acha importante realizar testes genéticos em pacientes com obesidade sindrômica?
Os testes que realizamos nos permitem fazer o diagnóstico em um grande número de crianças e, como consequência, o prognóstico e o aconselhamento genético às famílias. Estamos introduzindo várias tecnologias novas no Centro do Genoma que nos permitirão diagnosticar um número maior ainda de crianças. O estudo da interrelação de todos os genes associados à obesidade dará um panorama do efeito de cada um deles nas formas comuns. Em alguns anos, isso permitirá que as pessoas tenham os seus genes de susceptibilidade à obesidade identificados e, consequentemente, recebam tratamento personalizado.
E os testes genéticos oferecidos para obesidade comum que já estão sendo oferecidos em consultórios? São úteis atualmente?
Talvez nos raros casos de doenças monogênicas, mas que são relativamente raros. Representam cerca de 2% dos casos. Na obesidade poligênica, isto é, que depende da ação aditiva de genes de susceptibilidade, esses testes ainda não nos dão resposta que permita uma aplicação prática.
Por Mayana Zatz
Por isso, pesquisar se uma criança (ou adulto) torna-se obesa por causas ambientais ou genéticas é tão complexo. Para falar sobre o tema, eu entrevistei a Dra. Célia P. Koiffmann, que pesquisa o assunto no Centro do Genoma.
Dra. Celia, por que a obesidade está crescendo no mundo ocidental tanto em adultos quanto em crianças? Será que o acesso a alimentos, principalmente aos calóricos, está contribuindo para o aumento de peso das populações? Se todos comêssemos a mesma quantidade de alimentos engordaríamos da mesma maneira?
As respostas a essas perguntas são ainda parciais. A obesidade representa uma complexa interação de influências genéticas, comportamentais e ambientais. Os componentes ambientais são bem conhecidos: vida sedentária, excesso de ingestão de alimentos, principalmente de alimentos altamente calóricos. Se duas pessoas ingeriram as mesmas calorias, o ganho de peso poderá ser diferente de acordo com o seu perfil genético e também da atividade física de cada uma.
E os fatores genéticos? Um gene alterado (mutado) é suficiente para causar obesidade?
Estudos recentes mostram que há inúmeros genes associados à obesidade. E o papel de cada um deles para o aumento exagerado de peso tem sido objeto de muitas pesquisas. Na obesidade monogênica (causada por uma mutação em um único gene), nós conhecemos onze genes que, quando mutados, levam a obesidade: LEP (leptina), LEPR (receptor de leptina) SIM1, POMC, MC3R dentre outros, são alguns exemplos. Essas mutações são raras nos seres humanos. As formas comuns de obesidade têm uma herança chamada multifatorial. Ela resulta da interação de vários genes, cada um com um efeito pequeno (obesidade poligênica), e hábitos alimentares.
O que está sendo pesquisado no Centro do Genoma?
No Genoma, nós estamos estudando a obesidade sindrômica. Isto é, aquela que aparece junto com várias características clínicas distintas, associadas a dificuldades escolares e distúrbios de comportamento. A forma sindrômica mais frequente é a síndrome de Prader-Willi (PWS) caracterizada por hipotonia (bebê molinho), dificuldade de sucção no período neonatal, atraso do desenvolvimento neuropsicomotor (DNPM), hiperfagia (fome exagerada), mãos e pés pequenos, dificuldade de aprendizado e distúrbios de comportamento.
Como o estudo da obesidade sindrômica pode auxiliar na pesquisa sobre os genes comuns de obesidade?
Avaliamos vários pacientes com obesidade sindrômica nos quais descartamos a síndrome de PWS por meio de testes genéticos. Isso nos permitiu identificar diversos outros genes relacionados à obesidade. Qual o papel desses genes? Como eles atuam? Ainda não sabemos, mas estamos investigando.
Você acha importante realizar testes genéticos em pacientes com obesidade sindrômica?
Os testes que realizamos nos permitem fazer o diagnóstico em um grande número de crianças e, como consequência, o prognóstico e o aconselhamento genético às famílias. Estamos introduzindo várias tecnologias novas no Centro do Genoma que nos permitirão diagnosticar um número maior ainda de crianças. O estudo da interrelação de todos os genes associados à obesidade dará um panorama do efeito de cada um deles nas formas comuns. Em alguns anos, isso permitirá que as pessoas tenham os seus genes de susceptibilidade à obesidade identificados e, consequentemente, recebam tratamento personalizado.
E os testes genéticos oferecidos para obesidade comum que já estão sendo oferecidos em consultórios? São úteis atualmente?
Talvez nos raros casos de doenças monogênicas, mas que são relativamente raros. Representam cerca de 2% dos casos. Na obesidade poligênica, isto é, que depende da ação aditiva de genes de susceptibilidade, esses testes ainda não nos dão resposta que permita uma aplicação prática.
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